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História e Cultura >> Folclore
São Cosme e São Damião - 27 de Setembro
São Cosme e São Damião eram gêmeos que viveram na Arábia pelos fins do terceiro século e inícios do quarto. Afirma-se que eram médicos. Depois da conversão, curavam mais pela virtude do que pela medicina. Não aceitavam receber um centavo pelo serviço prestado. Os irmãos aproveitavam também para divulgar a fé cristã entre aqueles que se recuperavam das doenças. As perseguições do Imperador Diocleciano, porém, não demoraram a frear a ação benéfica destes "médicos do amor". Foram presos e forçados a negar sua fé. Sofreram torturas. Condenados à morte, resistiram milagrosamente a pedradas e flechadas, mas acabaram morrendo decapitados. Inúmeros milagres se deram na sepultura deles. A data é bastante comemorada em toda a Bahia, e em Ilhéus, a tradição manda servir caruru e distribuição de doces, como uma forma de devoção aos dois santos, tendo as famílias a maior satisfação de recepcionar os amigos.
Bumba-meu-Boi: acontece no povoado de Pedras nos dias 05 e 06 de janeiro, esta modalidade de bumba-meu-boi, tem como personagens principais: O BOI, A LOBA, A CABRINHA, O CABOCLO, O VAQUEIRO e a brincadeira consiste em um grupo de pessoas que acompanhados de tocadores dançam e cantam de porta em porta, no final da brincadeira o boi é morto e repartido entre os presentes.
Lendas do mar fortalecem devoção a Iemanjá
Dizem os pescadores que o mar do Rio Vermelho já não é tão fértil como antes. Histórias contadas por estes homens explicam a causa do fenômeno – uma ofensa à figura de Iemanjá teria trazido o castigo. Reza a lenda que um dia, a Rainha das Águas, em forma de sereia, foi capturada por uma rede de pesca de xaréu. Comovido com a conquista, o pescador levou-a à força para uma capela onde uma missa era celebrada, e fez com que ela assistisse a tudo. Sentindo-se humilhada, a sereia chorou durante horas e, depois disso, os peixes ficaram escassos e a fartura nunca mais foi a mesma no Rio Vermelho. Com estes e outros relatos, levam a vida os que vivem da pescaria, acostumados com a proteção da Mãe das Águas. Entre eles, houve até pescador que disse ter visto a sereia no fundo do mar – mas não há testemunhas vivas do fato. Inclusive porque, segundo a tradição, a Rainha leva consigo qualquer um que ateste sua presença.
Com o castigo de Janaína, como também é conhecida Iemanjá, os pescadores do Rio Vermelho são obrigados a deslocar-se a outros mares para conseguir pescar, como nos arredores de Morro de São Paulo e Guaibim. O que transcende a ficção se torna factível com os comentários dos que vivem da pesca na Colônia Z-1. Depoimentos de Antonio Santana Pereira, 51 anos, 30 deles de pescaria, resumem os entraves. “Nós temos que viajar quando queremos pegar muito peixe. Nas viagens, o barco já afundou, virou, entrou água. Só sobrevivi com a proteção de Iemanjá”, relembra.
Falando em proteção, Pereira faz os pedidos a cada viagem marítima. “Para que ela me ajude a ganhar o pão de cada dia”, acrescenta. Filho de um pescador que morreu no mar ao redor de Mar Grande, em Itaparica – “o barco virou e o tubarão devorou o braço. Papai morreu por perda de sangue”, comenta –, ele não chega a fazer promessas para a Rainha das Águas, mas, a cada 2 de fevereiro, quando todas as homenagens se voltam para ela, sente prazer em ajudar na festa. “Ajudo a levar as oferendas para o fundo do mar. Também é uma forma de agradecimento pelo que consigo”, revela.
Céticos - É do senso comum que todo pescador acredita em Iemanjá, mas nem sempre os depoimentos confirmam a crença. Tem pescador que é evangélico e diz só pedir a proteção de Deus. “Só acredito em Jesus Cristo. Para mim, tudo isso é superstição, não creio em nenhum orixá”, declara David dos Santos, 46 anos, 26 deles na pesca. No dia 2 de fevereiro, inclusive, ele nem vai ao Rio Vermelho. “Fico em casa, nem participo”, revela.
Quem também não crê na energia da divindade é o consultor de informática e pescador Maurício Nonato dos Santos, 46 anos – dez deles como pescador. Com um currículo de dar inveja, em empresas como IBM, Cobra e Itautec, ele adotou a pesca como terapia e acabou se entregando ao ofício. “Tive problemas de pressão arterial e o médico me recomendou pescaria. Estava estafado”, recorda. O que era um suporte emocional terminou como uma paixão. Maurício deixou o trabalho para viver da pesca e de alguns biscates na área de informática.
“Comprei um barco, emagreci 14kg, nunca mais tomei nenhum remédio”, acrescenta. A realização pessoal, no entanto, não é atribuída a Iemanjá. “Nunca acreditei nela e nunca aconteceu nada comigo”, diz. Mas, contraditoriamente, no dia 2 de fevereiro, Maurício acende velas e, junto com os pescadores, ajuda na compra do presente principal para a Rainha.
Culto iniciado pelos escravos
Se hoje alguns pescadores pedem proteção a Iemanjá e ajudam na organização da Festa de 2 de Fevereiro, antes eram os escravos que lideravam a única grande celebração popular de Salvador sem representação católica. Há algumas diferenças no culto, entretanto. Na África, os nagôs não homenageavam Iemanjá publicamente e, nos rituais do candomblé mais conservador, a celebração restringia-se a espaços fechados. Já o culto no Brasil caracteriza-se como externo, tendo o mar como cenário. O mito se instalou em terras brasileiras com os primeiros escravos vindos da África. Mas historiadores apontam que o culto teria chegado a Salvador e recôncavo baiano no século XVII.
No livro Bahia de outrora, Manuel Quirino descreve a festa da Mãe d’Água realizada pelos escravos, quando recebiam liberdade dos senhores para cultuar seus deuses. A maior celebração acontecia em frente ao antigo forte de São Bartolomeu, em Itapagipe – hoje demolido – no terceiro domingo de dezembro, quando compareciam mais de dois mil escravos e todos os pais de terreiro da cidade. A festa durava 15 dias. Em um certo dia, anunciaram à multidão que a homenagem seria feita à Mãe d’Água, e um pote de barro cozido se encheu de presentes, que eram atirados ao mar. Em seguida, a festa terminava e os escravos retornavam para os seus senhores.
A historiadora Gessy Gesse conta que, em Salvador, a primeira festa em homenagem a Iemanjá aconteceu no dorso do Farol da Barra, onde havia a Fonte da Mãe d’Água, no século XVIII.
“Desde aquela época, os pescadores já traziam presentes. Tinha muito samba e muita alegria”, rememora. Os escravos, sempre que tinham a fartura do peixe, agradavam Janaína como forma de agradecimento. Faziam romarias e acabavam comemorando no local.
A festa foi migrando aos poucos para o Rio Vermelho, mas não há registros de quando tornou-se oficialmente típica do bairro. Há versões sobre o surgimento da comemoração no local em 1924, quando os pescadores da Colônia Z-1 começaram a agradecer as bênçãos da orixá. Eles teriam lançado presentes ao mar para sobreviver a uma temporada de pesca ruim. Como houve melhora na atividade, passaram a agradecer com fé a Iemanjá pelo sustento. Durante a migração para o bairro, a homenagem aconteceu também no Largo de Itapuã, sempre no dia 31 de janeiro. “Hoje tem pouca festa, é muito pequena. Meu único receio é que também acabe no Rio Vermelho”, destaca a pesquisadora.
Túnel do tempo/1987
Um movimento em prol da construção da praça no Largo de Santana marcou a homenagem a Iemanjá no dia 2 de fevereiro de 1987. O manifesto “A praça é do povo como o céu é de Iemanjá” foi lançado durante a festa pelo Grupo de Recomposição Ambiental (Germen). O objetivo era convocar a população para aderir à campanha pela construção da praça no terreno, onde uma imobiliária pretendia edificar um centro comercial. A movimentação, inclusive, havia começado há dois anos, com a demolição de uma casa antiga na área, que ficava atrás da Igreja no Largo de Santana. Houve um abaixo-assinado com cerca de 5 mil assinaturas, entre elas, as de Jorge Amado e Mário Cravo. Integrantes do Germen afirmavam que a praça seria o melhor presente que os moradores gostariam de oferecer a Janaína.
Perfil/Jorge Oliveira Mota
Amor à sereia
Com 40 anos de pescaria, Jorge Oliveira Mota, 54 anos, é um dos mais antigos pescadores da Colônia Z-1 do Rio Vermelho. “Nunca passei sufoco, graças a Iemanjá”, destaca. Mês de dezembro para ele é fraco de pesca, então a devoção aumenta. Os pedidos para o “ganha-pão” são diários. “Apesar do meu amor por ela, as namoradas que tive nunca tiveram ciúmes de Iemanjá”, faz questão de acrescentar, entre sorrisos e galhofas dos colegas.
Jorge já foi vítima de temporais e tempestades, muito balanço e até mesmo virada de barco. Um dos incidentes, há cerca de 20 anos, foi o que mais lhe marcou. “Passamos um sufoco. Eram 18 pescadores em um barco perto de Porto Seguro e não parava de entrar água. Pedi logo a Iemanjá para ajudar”, recorda. O resultado: Jorge saiu com vida, sabe-se lá se pela ajuda da sereia ou não.
CURIOSIDADES
Filhas-de-santo explicam que quem tem Iemanjá como guia deve cuidar sempre da beleza e evitar cortar os cabelos. Afinal, a divindade é vaidosa e gosta de estar bonita. Adora também receber oferendas e ajudar na conquista de companheiros.
Embora Iemanjá seja associada a Nossa Senhora da Conceição, as comemorações acontecem em datas diferentes. A santa é homenageada no dia 8 de dezembro, enquanto a orixá é reverenciada em 2 de fevereiro.
Iemanjá se apresenta de diversas formas nas imagens: na figura de moça morena, de cabelos pretos; como sereia, metade mulher e metade peixe; pode ainda ser representada como moça branca com cabelos escuros, vestida de túnica esvoaçante e caminhando sobre as águas.
Existem duas versões para a origem de Janaína: uma delas diz, que ao se formar o mundo, casaram-se Ododôa (terra) e Obatalá (céu). Desta união, nasceram Aganju (terra firme) e Iemanjá (mar). Dos dois irmãos, surgiu Orungan (ar), que se apaixonou pela própria mãe, que o rejeitou. Orungan raptou-a para seduzi-la, mas Iemanjá conseguiu fugir e caiu num abismo, morrendo em seguida. Ao morrer, seu ventre se abriu e saíram os orixás. Os seios, ao mesmo tempo, cresceram e romperam-se, jorrando águas que formaram as lagoas, rios e fontes.
Outra versão da lenda diz que a senhora dos mares é uma mulher jovem e formosa, e ocupa uma posição maior ao lado de Oxalá, que se apresenta como seu cônjuge e tem o posto mais elevado da hierarquia divina. Senhora de ar imponente, de seu corpo violado pelo filho Orugan (Oxumaré), nasceram os grandes deuses. Como as outras divindades, assume diversos caracteres. Existe assim uma Iemanjá sabá ou asobá, a mais velha de todas, que manifesta aparência senil. E uma Iemanjá Ogunté, uma jovem senhora, desafiadora e guerreira, portando inclusive uma espada em companhia do seu filho Ogum.
Janaína é conhecida também como Oloxum, Incê, Marabô e Dandalunda. O povo lhe atribuiu outros apelidos carinhosos, como Rainha do Mar, Estrela do Mar, Sereia do Mar, Princesa de Ajocá e Dona Maria.
CORREIO DA BAHIA/Carmen Azevêdo
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