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A Costa do Cacau compreende a faixa litorânea que se estende por cerca de 200 Km no sul da Bahia, entre os municípios de Itacaré e Canavieiras. Antigo território dos tupiniquins e aimorés, a colonização da região remonta ao terceiro decênio do século XVI, quando o rei de Portugal D. João III, o colonizador, decidiu pôr em prática nas terras do Brasil o plano de povoamento por concessão de donatários que prosperava nas ilhas da África lusitana. Com este propósito, dividiu o Brasil em quinze grandes glebas – as capitanias hereditárias – que iam da costa até a linha-limite do mediterrâneo de Tordesilhas, todas se estendendo dez léguas para o mar, abrangendo as ilhas que fossem encontradas.
O território atualmente ocupado pelo Estado da Bahia, foi dividido em três capitanias: a que se concedeu a Francisco Pereira Coutinho – Capitania da Bahia - e que se estendia por cinqüenta léguas da costa, da foz do rio São Francisco à ponta da Baía de Todos os Santos, na foz do rio Jaguaripe, incluindo o Recôncavo desta; a Capitania de Ilhéus, doada a Jorge de Figueiredo Corrêa, que se iniciava na foz do rio Jaguaripe, na mesma baía, logo abaixo da ponta sul da ilha de Itaparica, ia em direção ao sul até a margem norte do rio Grande (atual rio Jequitinhonha); e a Capitania de Porto Seguro, do limite da última até o rio Mucuri (próximo aos atuais limites dos estados da Bahia e Espírito Santo), doada a Pero do Campo Tourinho.
A Capitania de Ilhéus que abrange a atual Costa do Cacau, foi doada em 26 de junho de 1534 a Jorge Figueiredo Corrêa, fidalgo do reino, historiógrafo do rei e escrivão da Fazenda Real, um dos homens mais ricos de Portugal. O donatário, no entanto, jamais pôs os pés nos trópicos selvagens (morreu em Lisboa em 1571), mandando em seu lugar o militar e Cavaleiro da Ordem de Cristo, Francisco Romeiro, castelhano que há muito vivia em Lisboa.
Romeiro, partiu de Lisboa em 1535 e veio ancorar na ilha de Tinharé, onde, depois de guerrear índios bravios, ergueu uma povoação no alto do morro de São Paulo. A modesta povoação porém não prosperou. Francisco Romeiro acabou rumando para o sul. Em um ponto da costa, na baía de Ilhéus, assim denominada devido às ilhotas que se erguem fora da barra, Romeiro fundou no alto de um morro (atual outeiro de São Sebastião) a vila de São Jorge dos Ilhéus, sede da Capitania, uma das primeiras vilas do Brasil.
Infelizmente não se conhece a data em que foi instalada a vila (provavelmente nos primeiros meses de 1536; entretanto há historiadores que acreditam que antes de 1544 a vila não existia), pois os registros se encontravam entre documentos consumidos pelo incêndio do arquivo municipal. É interessante que Romeiro, administrador da Capitania, fez anteceder ao nome da vila a invocação de São Jorge, se não em louvor ao santo católico cuja imagem montada a cavalo saía na procissão de Corpus Christi, em Portugal, mas em homenagem ao capitão-donatário que permaneceu na Corte. São Jorge dos Ilhéus era, então, uma pequena povoação de casas de taipa cobertas de palha que não diferia muito das aldeias dos índios tupiniquins.
Nos primórdios, não se encontrou na Terra de Santa Cruz nem metais preciosos, nem as cobiçadas especiarias, como registrara Américo Vespúcio, em 1501-1502: Nesta costa não vimos coisa de proveito, exceto uma infinidade de árvores de pau-brasil. A riqueza do Brasil eram aquelas árvores frondosas, de tronco vermelho-ferruginoso, com folhas de um verde-acinzentado e belas flores amarelas que se salientavam na densa floresta que cobria o litoral, chegando a alcançar 25-30 metros de altura. Os índios a chamavam de birá-pitanga, “pau-vermelho”, e usavam a madeira dura e pesada para fazer arcos, e sua tinta vermelha para tingir penas brancas.
Estimulada pelos portugueses e por contrabandistas franceses, a extração do pau-brasil foi intensa e predatória; em média, oito mil toneladas de madeiras eram levadas anualmente nos porões das naus para a Europa. Para ilustrar essa depredação vale a pena citar que nos primeiros cem anos de exploração da colônia cerca de dois milhões de árvores de “pau-de-tinta” foram derrubadas, uma assustadora média de 20 mil por ano, ou seja, 55 por dia. Era o início da devastação da Mata Atlântica.
A exploração do pau-brasil (Caesalpina echinata), marcada pelo escambo com os índios (a madeira era trocada por espelhos, tecidos, facas e quinquilharias), seria, em breve, obscurecida pela cana-de-açúcar. O clima quente e úmido do litoral prestava-se para o plantio da cana, produto de grande valor na Europa. As terras férteis nas cercanias da vila de São Jorge dos Ilhéus fora, conquistadas aos índios tupiniquins para o plantio, onde foi implantado o primeiro engenho de cana-de-açúcar do Brasil – Engenho de Santana. Ao tempo de Mem de Sá, o Engenho Santana chegou a produzir por ano de 12 a 14 mil arrobas de açúcar. Esse antigo engenho de açúcar ficava em uma sesmaria pertencente ao então desembargador Mem de Sá (que viria a ser o terceiro Governador Geral do Brasil), pode ser visitado no povoado do Rio do Engenho, atual município de Ilhéus. Até hoje o turista ao subir ao rio do Engenho (ou de Santana), pode contemplar, à margem da primeira da cachoeira, a igrejinha e vestígios do engenho de açúcar. Na década de 1550, a capitania já contava com oito engenhos de açúcar. Jorge de Figueiredo Corrêa, Mem de Sá, Fernão Alvarez e Luca Giraldi, consorciados, montaram pelo menos três engenhos em torno da vila de São Jorge (do Rio) dos Ilhéus.
Esses empreendimentos coloniais exigiam mão-de-obra abundante e barata, e os colonos além de escravizarem o gentio tupiniquim, foram às praias do sul do atual estado de Santa Catarina e aprisionaram os pacíficos carijós. A essa mão-de-obra escrava somaram-se os negros cativos de Guiné. A capitania ostentou por uma década (1550/59) o apogeu da economia do açúcar. Em 1550, foi realizado o primeiro desembarque em Lisboa do açúcar produzido na capitania de São Jorge era a mais rentável da colônia.
Se por um lado, os dóceis tupiniquins deixaram-se, inclusive, escravizar, por outro, os bravios aimorés, índios botocudos, canibais (desses que usavam rodelas de madeiras no lábio inferior) em constantes assaltos, devastam os empreendimentos dos colonizadores portugueses. Sobre este aspecto, destacamos um relato da época: “A Capitania de Ilhéus havia sofrido tanto que a população quase toda a deixara; só depois que aquele governador (Mem de Sá, 1558-1568) se decidiu a lá ir pessoalmente com um socorro de naus e de gente, fazendo algumas entradas pelo interior do sertão para castigar os aimorés, é que se tornou a povoar a vila e a crescer em moradores a região”.
Como se não bastassem as escaramuças com os aimorés, em 1595 corsários franceses saquearam a vila, ali permanecendo até serem expulsos 27 dias depois. Mais tarde, em 1635, holandeses desembarcaram na praia do pontal e invadiram a vila, sendo, igualmente, rechaçados pela população.
As intensas lutas com o gentio atingiram duramente a capitania. Muitos senhores de engenho transferiram seus empreendimentos para o Recôncavo Baiano.
Após sucessivos donatários e corroída por problemas internos, a capitania entrou em decadência e, em 1685, já não mostrava vestígios da antiga prosperidade. Na primeira década do século XVIII, portugueses e brasileiros saídos de Ilhéus, migraram para o sul da capitania e às margens do caudaloso rio Pardo (originalmente denominado Jussiape) fundaram um povoado que alguns anos mais tarde daria origem à vila de Canavieiras.